A
TRIBUNA - 13/05/00
Vítima
apela ao ministro da Justiça
Da Reportagem
Um apelo. Mais um. O autônomo Orlando
Lovecchio Filho, que perdeu a perna esquerda em um atentado terrorista em 1968,
remeteu fax ao novo ministro da Justiça, José Gregori, lembrando-o que está
desde de 1995 tentando conseguir indenização e aposentadoria excepcionais.
Este mais recente capítulo de sua luta por Justiça é também um dos mais
tristes: ele está anunciando a venda de seu apartamento, onde vive há 21 anos
com sua família, para continuar a viver.
Com 54 anos, fumando em demasia e
tomando remédio para ansiedade há seis meses, Lovecchio Filho está em situação
de desespero por não deslumbrar um fim em sua história de obter a indenização
do Governo Federal.
Falando com ele, nota-se uma
pessoa desesperada. E com motivos. Lovecchio Filho diz que até gostaria da
ajuda de um grupo de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para que
sua causa tivesse mais força. ‘‘Não sei mais a quem recorrer’’, foi
uma das frases que mais usou ao ser entrevistado por A Tribuna.
A última manifestação de que
seu caso se encerraria logo aconteceu em novembro passado, quando Gregori —
então secretário dos Direitos Humanos — anunciou que o benefício sairia em
dezembro.
Presente não veio — Aquilo que
ele chegou a esperar como ‘‘presente de Natal’’ não veio. Na Páscoa, a
situação continuou inalterada. A expressão ‘‘presente de Natal’’ foi
usada após a audiência que o ex-deputado federal Joaquim Carlos Del Bosco
Amaral teve com Gregori em 16 de novembro último, quando este anunciou que a
pensão seria paga até 10 de dezembro.
‘‘Só depois entendi porque
fixaram a data para 10 de dezembro. É o Dia Internacional dos Direitos
Humanos’’, contou ontem Lovecchio Filho. ‘‘Eles reconhecem que tenho
direito à indenização, mas nada foi feito’’.
Agora, com a posse de José
Gregori no cargo de Ministro da Justiça, no início do mês, Orlando Lovecchio
Filho lhe remete um comunicado, no qual comunica que foi obrigado a colocar à
venda seu apartamento e implora para que ‘‘Vossa Excelência tente encontrar
urgentemente uma solução definitiva para esta injustiça’’.
Não bastasse somente o drama de
ter perdido uma perna em uma época que fazia curso para tirar licença de vôo
de piloto comercial, o caso até hoje vem recebendo contornos cada vez mais dramáticos.
Recentemente ele deixou um bilhete à família comunicando que se algo lhe
acontecesse ‘‘o culpado seria o Estado’’.
‘‘Nunca pensei em me matar. Jamais. Mas
ando em um estado de nervos tão grande que não sei se escapo, se tiver um troço
(mal-estar) andando na rua’’.
Sem citar nomes, ele lamenta a
falta de colaboração de um político santista, atualmente sem mandato. ‘‘Não
me deu nenhuma resposta aos inúmeros apelos que fiz. Telefonei, mandei carta, e
ele nunca me respondeu’’.
O atentado aconteceu quando ele
tinha 22 anos, na madrugada de 18 de março de 1968. Uma bomba explodiu no
Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, onde funcionava o Consulado dos Estados
Unidos.