A TRIBUNA – 15/09/99 

Vítima de bomba espera indenização

Da Reportagem

Vitimado por um atentado terrorista na porta do Consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, em 1968, que o fez perder a perna esquerda e abdicar, de vez, do sonho de tornar-se piloto comercial, Orlando Lovecchio Filho, ainda é cético quanto à disposição do Governo em reparar os danos sofridos pelas pessoas que foram atingidas por atos de grupos clandestinos durante a ditadura militar. Até o final do ano o Governo deve definir a forma de indenizar as vítimas da guerrilha.

  Mesmo tendo iniciado uma luta sem tréguas, desde 95, para ver reconhecida a responsabilidade do Estado em indenizar os que foram vítimas de atos terroristas, durante o regime militar, Lovecchio diz que só descansará quando efetivamente o Governo conceder indenizações. O primeiro passo, ressalta, é obter o reconhecimento do Estado, e, além da indenização, o mais importante é conceder uma aposentadoria excepcional. ‘‘Assim como foi concedida para terroristas e presos políticos‘‘.

  Segundo a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Direitos Humanos, o texto com a proposta de indenização deve ficar pronto até o fim do ano. O texto não foi elaborado porque o secretário José Gregori está percorrendo países da Europa para conhecer as polícias locais.

  O sonho acabou — Marcado pelas sequelas da explosão, o mais difícil para Lovecchio foi a resignação e ter que aceitar que seu sonho de se tornar piloto comercial havia acabado. A explosão ocorreu na madrugada de 19 de março de 1968, quando saía da garagem do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, onde tinha deixado seu carro, um Simca. Lovecchio tinha 22 anos e a bomba destruiu uma porta de ferro, vidros e parte da biblioteca do Serviço de Divulgação e Relações Culturiais dos EUA (Usis).

  Os estilhaços atingiram o então estudante na perna, que seis dias depois foi amputada na altura do joelho. Atingiram também Edmundo Ribeiro de Mendonça Neto, primo de Lovecchio, que sofreu ferimentos.

  Site — Toda mágoa que sente dos acontecimentos Lovecchio transferiu para um site na Internet, onde relata todo o seu drama, indagando, logo de início: ‘‘Por que só os terroristas políticos que foram atingidos por motivação exclusivamente política têm direito a aposentadoria excepcional e indenização pelo Estado?‘‘.

  Ele pergunta ainda: ‘‘E eu, que fui vítima inocente dos mesmos terroristas por omissão do Estado, e pelos mesmos motivos exclusivamente políticos, por que não posso receber os mesmos benefícios?‘‘. E revela seu atual estado: ‘‘Além do dano físico, eu também sofri dano mental, dor, trauma emocional e psicológico, sofrimento, choque, medo e humilhação igual aos já beneficiados‘‘.