A TRIBUNA -26/03/00
Luta para
reparar dano dura 7 anos
Da Reportagem
Há sete anos, Orlando Lovecchio
vem tentanto obter alguma espécie de reparo por causa do atentado de 1968. A
luta por reconhecimento de causa começou em 1992, com uma entrevista dada por Sérgio
Ferro ao jornal Folha de S.Paulo.
Nela, o artista plástico admitia
o atentado. Por conta das declarações, Lovecchio entrou com ação na Justiça
para obter indenização do pintor. Como o crime já havia prescrito, a ação
foi julgada improcedente.
Além de Lovecchio, também
entraram com ações Edmundo Mendonça e Vítor Fernandes Sicurela — ambos
estavam junto com Lovecchio e sofreram ferimentos leves por causa da bomba.
O atentado aconteceu na madrugada
de 18 de março de 1968 no estacionamento do Conjunto Nacional, na Avenida
Paulista, onde funcionava o Consulado dos Estados Unidos. ‘‘A bomba explodiu
e um portão de ferro estilhaçado fez um corte em minha perna’’, lembra
Lovecchio. ‘‘Fiquei oito dias no Hospital das Clínicas, até que houve
gangrenas e eles tiveram que amputá-la’’.
Na época com 22 anos, Lovecchio
estudava Administração de Empresas e morava há poucas semanas na Capital.
Também fazia o curso para tirar o brevê (licença de vôo) de piloto
comercial.
‘‘Atentado matou sonhos’’
— Lovecchio vive com uma prótese no lugar da perna esquerda que lhe permite
fazer tudo. ‘‘Apesar de até hoje voar em aviões de amigos, o atentado
matou meus sonhos’’.
Depois de perder para Ferro na
Justiça, Lovecchio vislumbrou uma nova possibilidade de reparo com a edição
da Lei 9.140, em 1995. Na época, mandou carta a Fernando Henrique Cardoso,
pedindo o mesmo tratamento.
Uma resposta viria em fevereiro
de 1998. Em uma entrevista em Buenos Aires, José Gregori reconheceu o direito
de Lovecchio e das famílias de Kozel e Lyda Monteiro. ‘‘O Estado,
independentemente de quem estava no poder quando os fatos ocorreram, tem aquilo
que nós chamamos de ‘culpa em vigilando’. Ou seja, ele não deu a segurança
que deveria ter dado ao cidadão’’, afirmou Gregori na época.
Em 16 de novembro de 1999, em uma
audiência com o ex-deputado federal Joaquim Carlos Del Bosco Amaral (PMDB),
Gregori prometeu que a pensão seria paga até 10 de dezembro. ‘‘Ele disse
que seria meu presente de Natal’’.
A TRIBUNA -26/03/00
Dias defendeu
o autor do ataque
Da Reportagem
A revolta de Orlando Lovecchio resvala no
atual ministro da Justiça, José Carlos Dias. Nos anos de chumbo da ditadura,
quando se notabilizou por advogar para presos políticos, o ministro defendeu Sérgio
Ferro em um processo em que o pintor era acusado pela Justiça Militar.
No entanto, apesar da ligação
com o autor do atentado que feriu Lovecchio, Dias apoiou a campanha do santista
em troca de correspondências realizada entre ambos em 1997.
Na ocasião, o santista remeteu
carta ao advogado, pedindo auxílio jurídico em sua campanha para obter a
indenização.
Em 12 de agosto daquele ano, Dias
respondeu com outra carta. Disse que não poderia atendê-lo porque havia
defendido Ferro no processo na Justiça Militar, mas deu apoio à luta de
Lovecchio.
‘‘Estou de acordo que toda
pessoa faz juz à proteção do Estado e, no seu caso, com maior razão, por
tratar-se de pessoa que não estava vinculada a nenhum dos lado em conflito
(...). Tomo a liberdade de encaminhar sua carta ao meu amigo José Gregori,
secretário Nacional de Direitos Humanos, com quem conversarei pessoalmente,
para que estude um caminho’’, afirmava Dias na carta.
Hoje, Dias é superior hierárquico
de Gregori e Lovecchio está cobrando o apoio dado. Em uma carta enviada no último
dia 8, o santista questionou o ex-advogado de Ferro em fax enviado ao Ministério
da Justiça: ‘‘Queira perdoar a ousadia deste, mas apreciaria saber de Vossa
Excelência (Dias) se ainda comunga das mesmas idéias que expressou em
correspondência enviada (em 1997), ou se, agora como autoridade máxima da
Justiça deste País, assim não mais pensa?’’
Lovecchio mesmo responde à própria
pergunta, em tom de raiva. ‘‘Quando eles entram no Governo, acabam pensando
diferente’’.
A TRIBUNA -26/03/00
Vítima
de atentado ainda espera pensão
Da Reportagem
Trinta e dois anos após ter perdido uma
perna em um atentado de terroristas de esquerda em março de 1968, o santista
Orlando Lovecchio Filho, de 52 anos, ainda deverá esperar muito tempo para
receber o pagamento de pensão mensal prometida pelo Governo Federal em 1999.
O processo de Lovecchio está
parado nos escaninhos burocráticos da Secretaria de Estado dos Direitos Humanos
do Ministério da Justiça.
Em novembro último, o secretário
Nacional dos Diretos Humanos, José Gregori, anunciou que o santista teria
direito ao benefício a partir de dezembro do ano passado.
Mas na sexta-feira a Assessoria
de Imprensa de Gregori informou que a pensão dependerá de aprovação de lei
pela Câmara dos Deputados e Senado Federal.
‘‘O problema aflige o secretário,
mas, para a concessão de indenização, tem que ter uma lei no Congresso’’,
disse a assessora de Imprensa de Gregori, Lúcia Carneiro. ‘‘Isso (o
projeto) ainda está sendo estudado pelos órgãos competentes’’, afirmou
ela, sem dar prazos nem detalhes. A aprovação de projetos no Congresso costuma
demorar — às vezes, anos.
Irritação — Lovecchio ficou
irritado ao saber da notícia. ‘‘Eles não querem resolver nada’’. O
santista também acusou de sectarismo Gregori e os membros do Governo Fernando
Henrique. Também atacou o ministro da Justiça, José Carlos Dias, que lhe
havia prometido apoio (ler matéria).
‘‘Quando foi para resolver o
problema do pessoal da esquerda, eles agiram rápido’’, criticou Lovecchio,
referindo-se à Lei Federal 9.140/95.
De autoria do Governo Federal, a
lei prevê indenizações às famílias de pessoas e militantes de esquerda
desaparecidos durante o regime militar até agosto de 1979. Mas não estende o
benefício a vítimas como Lovecchio. Daí a necessidade de projeto de lei específico.
Lovecchio é o único vivo entre
as vítimas de atentados cometidos durante o regime militar. Ele teve a perna
esquerda destruída por uma bomba de dinamite colocada pelo pintor e arquiteto Sérgio
Ferro no Consulado dos Estados Unidos em São Paulo. Hoje um dos maiores nomes
das artes plásticas no País, Ferro era vinculado na época às organizações
de esquerda Aliança Libertadora Nacional e Vanguarda Popular Revolucionária
(ler matéria).
Além do atentado de Lovecchio, há
outros dois casos em que a Secretaria de Direitos Humanos estuda indenizar as
famílias de mortos em ações terroristas por meio de projetos de lei.
Os episódios envolveram a
ex-secretária-geral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Lyda Monteiro da
Silva, e o soldado Mário Kozel Filho. Kozel foi morto em 1978, em um atentado
com dinamite. Lyda faleceu após ser atingida por uma carta-bomba, em agosto de
1980.
Lovecchio vem lutando desde 1993
por uma indenização (ler matéria). Depois da aprovação da Lei 9.140, passou
a pleitear o benefício. ‘‘Acho que tem que tem que haver equidade’’,
diz Lovecchio. ‘‘Assim como as pessoas de esquerda torturadas e mortas sob
tutela do Estado, eu fui vítima da falta de segurança que teria que ser
fornecida pelo Estado brasileiro’’.