A TRIBUNA – 26/11/99

 

Vítima de atentado receberá pensão

Da Reportagem

O Governo Federal irá pagar uma pensão mensal ao santista Orlando Lovecchio Filho, de 52 anos, que perdeu uma perna ao ser atingido por uma bomba em atentado de terroristas de esquerda em março de 1968, durante o regime militar.

  A decisão foi anunciada pelo secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, em audiência mantida na terça-feira com o advogado e ex-deputado federal santista Del Bosco Amaral (PMDB).

  ‘‘O secretário reconheceu que o Lovecchio tem direito‘‘, afirmou Del Bosco a A Tribuna. ‘‘Será a primeira pessoa viva a ser contemplada na legislação‘‘.

  Lovecchio também será a primeira vítima de atentados de esquerda a receber pensão. Os valores não foram informados por Gregori a Del Bosco. ‘‘Também não está definido se ele terá direito ou não a uma indenização, mas eu acredito que tenha‘‘.

  A notícia deixou Lovecchio emocionado. ‘‘Quando o Del Bosco falou, eu não acreditei‘‘, disse o santista na sexta, sem saber dos detalhes da audiência.

  Desde 1993, Lovecchio vem tentando ter direito à indenização. Isso aconteceu depois que o artista plástico e arquiteto Sérgio Ferro reconheceu em entrevista dada em 1992 ter sido o autor do atentado.

  Ferro, que hoje vive na França e é considerado um dos maiores nomes das artes plásticas do País, era vinculado à Aliança Libertadora Nacional e Vanguarda Popular Revolucionária — movimentos de extrema esquerda que patrocinaram ações de luta armada contra o regime militar.

  Lovecchio, que passava pelo local, foi atingido por uma bomba colocada na porta do Consulado Americano, na Avenida Paulista (Capital), onde fica o Conjunto Nacional, esquina com a Rua Augusta. Sua perna esquerda teve que ser amputada por causa da explosão. Segundo Ferro, o atentado teve como objetivo protestar contra a Guerra do Vietnã.

  Na época, Lovecchio se preparava para ser piloto comercial. Não pôde seguir a carreira por ter tido a perna amputada.

  Além da mutilação, chegou a ser considerado suspeito de participar de grupos terroristas. A Polícia pensou que a bomba teria explodido numa tentativa de atentado tramada por Lovecchio.

  Quando Ferro deu a entrevista, publicada no jornal Folha de S.Paulo, Lovecchio e mais dois amigos que também foram feridos no atentado moveram ação indenizatória contra o artista. Como o crime havia prescrito, a ação foi julgada improcedente.

  A luta de Lovecchio foi retomada em 1995, quando ele soube que o presidente Fernando Henrique Cardoso encaminharia ao Congresso o projeto de lei que previa as indenizações.

  Em 1998, mesmo sem dar uma solução para o caso, José Gregori disse que Lovecchio e as famílias de outras duas vítimas mortas em atentados de esquerda teriam direito à reparação pelo governo. Segundo Gregori, o Estado tem obrigação de garantir a segurança do cidadão.

  Além de Lovecchio, estão à espera de indenizações as famílias do sentinela Mário Kozel Filho, morto em 1978 num atentado com dinamite, e Lyda Monteiro da Silva.

  Lyda era secretária-feral do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Morreu vítima de uma carta-bomba em agosto de 1980.