ESTADO
DE SÃO PAULO - Sábado, 20 de janeiro de 2001
Vítimas
da esquerda deverão ser indenizadas
Pensão
deve ser paga a famílias de pessoas mortas por guerrilheiros durante ditadura
EDSON LUIZ
BRASÍLIA – Depois de 33 anos, o
governo tenta reparar um erro: o reconhecimento das vítimas da esquerda no País.
O presidente em exercício, Marco Maciel, encaminhou ao Congresso projeto que
concede pensão especial a Mário e Terezinha Kozel, pais do soldado Mário
Kozel Filho, morto num atentado da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no
Quartel-General do Exército em São Paulo, em junho de 1968. O fato não acabou
só com a vida de um jovem de 18 anos, mas de duas pessoas que nada tinham a ver
com a luta durante o regime.
“Eu sabia que alguma coisa iria
acontecer com meu filho”, recorda Mário Kozel, um aposentado de 78 anos, que
mora em Santa Bárbara d’Oeste. “Ele estava servindo em Itaúna e foi
chamado, para dois dias depois morrer. Mataram meu filho”, diz Kozel.
O soldado era o segundo dos três
filhos do casal e morreu sem saber por quê. “Ele não entendia de política,
estava ainda no ginásio”, diz o pai. Kozel Filho nem mesmo queria seguir a
carreira militar e pretendia montar um negócio próprio, uma oficina mecânica.
O sonho durou até as primeiras
horas de 26 de junho de 1968 e foi desfeito pelo ataque com um carro-bomba que
atingiu a guarita onde ele estava como sentinela. O pai trabalhava quando
recebeu o telefonema do Exército. “Eles avisaram que tinha ocorrido algo com
meu filho”, conta. “Tinha certeza que ele já estava morto.”
Do Exército, Kozel Filho recebeu
apenas as honras militares durante o enterro e a família, uma pensão que durou
apenas três meses. “Eles nos prometeram dar uma quantia até que meu filho caçula
completasse 21 anos, mas isso não aconteceu”, diz Kozel. Cid, o filho caçula
ao qual se referia, não chegou aos 21 anos. Pouco após a morte do irmão,
entrou em depressão e morreu de câncer.
A família vai receber pensão de
R$ 300, ao contrário de ooutros beneficiados, que receberão R$ 500. Terezinha
lamenta, mas não quer falar sobre o assunto. “Não há dinheiro que pague a
vida de meu filho.”
Além de Kozel, o governo pretende
reparar a morte da secretária Lyda Monteiro, num atentado na Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB), no Rio, em 27 de agosto de 1980. O ato não foi
admitido por nenhuma organização, mas há suspeita de ter sido arquitetado por
extremistas de direita.
A família de frei Tito Alencar
Lima, que se suicidou em Paris, depois de ser torturado em São Paulo, em 1979,
também receberá pensão de R$ 500, assim como o ex-piloto Orlando Lovecchio
Filho, que perdeu uma perna num atentado ao consulado americano em São Paulo.
Até agora, o governo analisou 366
processos de parentes de desaparecidos políticos e concedeu indenização, que
varia de R$ 100 mil a R$ 150 mil, a 280 deles, entre os quais de Carlos Lamarca,
José Campos Barreto e Carlos Marighella.
Mas já está no Palácio do
Planalto projeto aumentando possibilidades de indenizações. “Serão
reconhecidas como mortas as pessoas que tenham sido detidas por agentes públicos,
em decorrência de participação, ou acusação de participação, em
atividades políticas que estejam desaparecidas sem que delas se tenha notícia”,
diz o projeto.
Durante a discussão da lei dos desaparecidos, a área
militar questionou a idéia de indenizar Lamarca. Para o Exército, ele não
passava de um traidor. O novo projeto pode provocar mais discussões.