Transcrição de matéria da FOLHA DE SÃO PAULO
sábado, 02 de junho de 2001
HISTÓRIA
LUIZ FRANCISCO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR
Dois dias depois de renunciar ao mandato, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães
(PFL-BA) intensificou suas críticas pessoais ao presidente Fernando Henrique
Cardoso.
"Ele [FHC] nunca sofreu na ditadura. Ele era o homem da Mercedes-Benz no
Chile, nunca foi exilado. Até nisso ele mente para o povo. Ele sustenta uma
aposentadoria de R$ 8.000, sem nunca ter trabalhado", declarou ACM, antes
de almoçar em uma churrascaria de Salvador.
O ex-senador apoiou o Movimento Militar de 1964, que impulsionou sua carreira:
foi prefeito nomeado de Salvador (67-70) e governador eleito indiretamente por
duas vezes (71-75 e 79-83). Em 92, ao criticar Itamar Franco, ACM admitiu sua própria
condição de biônico: "Como ex-biônico, reconheço no vice-presidente o
último biônico da República".
Em Brasília, o porta-voz Georges Lamazière disse que presidente Fernando
Henrique Cardoso "não vai responder a quem está profundamente magoado e
perdeu a respeitabilidade".
ACM não gostou das críticas veladas feitas pelo presidente. Anteontem, sem
citar o nome do ex-presidente do Congresso, FHC condenou comportamentos
antidemocráticos: "Antidemocrático está sendo ele [FHC], quando faz
liberações de verbas para evitar votações contra o governo".
Segundo ele, as críticas que fez ao governo em sua despedida do Senado são
justas: "Eu estou mostrando ao Brasil que a área econômica está
mentindo, que estamos em uma situação dificílima, que podemos entrar no caos
se não forem tomadas novas medidas".
Ele voltou a criticar os integrantes do Conselho de Ética. "Não quero
citar nomes, mas todos que me prejulgaram não são dignos de me julgar,
simplesmente porque não têm conduta igual à minha", disse. ACM decidiu
renunciar depois que o conselho aprovou o relatório do senador Saturnino Braga
(PSB-RJ) pedindo a abertura de processo de cassação.
Ao lado do governador César Borges (PFL) e do prefeito de Salvador, Antonio
Imbassahy (PFL), ACM também criticou a ex-diretora do Prodasen Regina Borges e
seu marido, Ivar Ferreira: "Agora estão surgindo novas coisas naquele
painel. Isso é uma demonstração inequívoca de que aquele grupo da dona
Regina e do seu marido manipulava o painel de forma ilícita e condenável".
Em relação à lista de votação da sessão que cassou Luiz Estevão (PMDB),
ACM disse que "mais dia, menos dia", a relação dos votos vai
aparecer. "Tudo indica que os votos de alguns petistas foram nessa linha
[para absolver Estevão". Quando surgir, a lista vai desmascarar muita
gente. Muitas pessoas me chamaram de canalha, mas, na realidade, canalhice foi
trair o partido."
ACM também não poupou o senador José Eduardo Dutra (PT). "Eu gostava
muito do senador Dutra. Ele era todo valentão, mas ficou calmo de uma hora para
outra. Ele me decepcionou muito nos últimos tempos", disse.
O ex-senador comparou o PT "à casa de Noca" [expressão usada para
dizer que não existe comando]: "O problema do PT é que não existe
comando. O partido faz um compromisso e ninguém cumpre. O PT e o governo, hoje,
têm a mesma cara do Jader Barbalho".
Apesar de criticar o PT, ACM disse que respeita Lula: "Eu respeito muito o
Lula, mesmo divergindo das suas opiniões. O Lula tem muitas qualidades."
Após o almoço, ACM foi para seu escritório, onde recebeu a visita do
pugilista Acelino Freitas, o Popó.
Presidente viveu no exílio após o Movimento de 64
DA REDAÇÃO
Fernando Henrique Cardoso foi para o exílio após o Movimento Militar de 1964.
Ameaçado de prisão, FHC se ocultou no Guarujá e depois viajou para o Chile,
onde viveu até 1967.
Aproximou-se então da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) e
publicou em 67 "Desenvolvimento e Dependência na América Latina",
com Enzo Faletto, que o tornou bastante conhecido nos EUA.
Do Chile, FHC seguiu para a França, retornando ao Brasil em 1968 para disputar
a cátedra de ciência política na USP. Na época, passou a morar numa casa no
Morumbi, bairro nobre de São Paulo. FHC obteve a cátedra, mas foi aposentado
compulsoriamente com base no AI-5, de dezembro de 1968 (no ano passado, recebia
R$ 5.450 de aposentadoria).
Em 1969, FHC liderou a criação do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento), viabilizado graças a uma verba de US$ 180 mil que ele obteve da
Fundação Ford, instituição que sustentou o Cebrap em seus primeiros anos.
Na época, o Cebrap funcionava como um centro de pesquisas próximo ao MDB,
tendo sofrido um atentado a bomba em 1976. Além do Cebrap, FHC trabalhou na época
no Centro de Estudos Latino-Americanos da Smithsonian Institution.